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segunda-feira, 14 de julho de 2014

da noite em que oxóssi encontrou yemanjá

lua cheia
de ponta cabeça
somente se via

iluminava
todo
o corpo dela
a cara dele

pendido o pescoço
suspensa as pernas
patas cheias de saliva

pedidos e ordens
supervisionados
servir-se e sorver

perdidos os sentidos
controle e vontade
mata selvagem de prazer

caçar sem pudor
caça ser em louvor
corpo um só

banho de terra
banho de mar
autorretrato luna llena
cavar e espumar
espumar
espumar


segunda-feira, 28 de abril de 2014

flor da idade

o alvo
o arco
a flecha

revesa

domingo no parque

uva e limão 
nossos preferidos
chupamos sem fim

vocês são artistas?
indagou o vendedor 
sorrimos: talvez

aterro do flamengo
domingo de sol
aos três

(des)ilusão

"você é perigosa, aline"
mas foram sempre eles que me tiveram em suas mãos.

sábado, 8 de março de 2014

des-pé-rtar

mindinho
trrr
vizinho
...
trrr
...
dedão

um por um estalados
os dedos dos pés
pela mão

as tão grandes patas
as veias rios que correm
tantos dedos
unhas
pescam
pagãs
puxam

os dedos tão pequenos
os pés sempre chorosos
uns os diziam feios
outros diziam horrorosos

trrr
trrr's
agora no esquerdo
os dedos sorriam
adormecidos
davam gritinhos
surdos
os pés gemiam

(sentia certo nervosismo
desde criança
mais que dor, é verdade
estalo de cuidado e intimidade
- por carinho é até bom sofrer)

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

confissões de adolescentes - episódo de hoje: el cuerpo

as noites podem ser bem doloridas às vezes, ainda que a dor não seja física, ainda que a dor não-física escorra também  pelo corpo. os olhos podem amanhecer fugindo da luz, a voz pode faltar, pode faltar também o ar. mas a roda do mundo gira e cada passo caminhado em cima do globo o faz girar também. sem movimento, morre-se. as palavras tem poder. de punhal e de cura.
tpm às vezes passa sem se notar. o corpo geralmente se faz perceber. é importante que a mulher, que o ser humano, perceba e respeite os sinais de seu corpo.

djavan toca na rádio: sorrir quando a dor te torturar e a saudade atormentar os teus dias tristonhos vazios.

a menina conversava - internet e seu poder de aproximar mesmo que se esteja longe-, agachou-se no chão da cozinha enquanto passava um café de almoço. o chão quadriculado. branco e preto. o pano fino do vestido azul. chorou, riu, nem sentia mais as cólicas da manhã, no ventre, no coração pesado. as palavras dela foram entrando, feito mantra, feito manto, feito alma, e o bálsamo, aos poucos, foi tomando-lhe os lábios, o pranto fez-se riso e o pulmão respirou fundo os novos ares e o aroma quente e acolhedor do café. despediram-se virtualmente. ela pensava na pesquisa. pensava no poder das palavras. nas decepções. nos afetos que se transformam. nas ligações importantes. 

mpb4 toca na rádio: eu já estou com o pé nessa estrada, qualquer dia a gente se vê, sei que nada será como antes, amanhã, que notícias me dão dos amigos? que notícias me dão de você? alvoroço em meu coração, amanhã ou depois de amanhã resistindo na boca da noite um gosto de sol.

a menina se levanta, leve, agora já sente fome. percebe-se com leve dor, percebe: menstruou. o sangue correndo pela conversa, pelo passado, pelo presente, pelos corpos, pelas terras todas, lavando e levando todos os fantasmas que ainda podiam sobreviver agarrados à pele, internos. a cor mais quente, as unhas cor vanguarda, quente o rio que não corre duas vezes no mesmo lugar.

domingo, 8 de dezembro de 2013

cinco


até a última ponta
até o caroço
até esgotar
se não enruga o dedo
pra mim não tem graça
a vida é feita pra se gastar
.

sábado, 21 de setembro de 2013

diurna astrofagia

À noite, ela ingressa em Touro para acalmar toda urgência.

disse maína

disse maria
disse a moita
a morte
a muda
mudança
o medo
gemido
aflito
fito
os olhos
os alhos
fritos.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

ponto supra externo

terra folha ponto e pinta
filmão
filma o pé com os olhos
chora
apoia a cabeça nos joelhos dela
cinema mudo
no ar
comanda as mãos para carinho
desobedecem
paralisadas
o sol se pondo
calor
oi
você vem sempre...
venha sempre
nunca mais foi.


(postado no site TremaLiteratura com o seguinte itálico do editor: "Aline Miranda é como aquela menininha de Peixe Grande que rouba os sapatos do viajante para que ele não vá embora.")

pois.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

à nobre rainha

quantas moças
(e alguns rapazes, sei também)
sonhariam com seu posto
e no entanto
o renegas

a coroa que lhe dei
feita de flores e versos
metrificada para caber
somente entre suas
doces orelhas

o manto listrado
(feito minha bolsa
seu edredom)
com o qual cobri seu corpo
do frio
e da solidão do entardecer
em casa.

abdicaste de seu título
rainha

mas seu sorriso-sol
estrela do mar
do meu peito
sempre será rei.


quinta-feira, 30 de maio de 2013

trânsito astro(não)lógico

Toda azul tua presença,
(Magdalena),

     Rodoviária. Cinco. Saens Peña. Lapa. Dois. Laranjeiras. Central. Dois. P. do Flamengo. Urca. Expresso.
     Passam os ônibus na longa Jardim Botânico. Refresco-me. Saravá!
     Tantos Rodoviária devem ser um sinal de que preciso viajar. Procuro sinais. Procurei pintas. Daria para desenhar treze constelações astrais no teu corpo, cometa.
     Os Voluntários dessa Pátria, o que ganham se chegam ao céu? Das vezes que me levastes lá, éramos todos voluntários experimentais em busca de aventura, suor, prazer (e afeto, eu).
     As três marias viraram poeira. Mas as partículas se entrelaçaram para sempre. No espaço (com o vento, com o tempo) formam nuvens. E quando o destino (se) assim o quiser, choverá. Ojalá!

tantos beijos,
(ainda que para mim não suficientes)
Carmen.


terça-feira, 28 de maio de 2013

fónzinho

boca já sangrava do frio
palavras.
verdades?
calor no peito
dor de barriga
recuerdos coloridos
frio repentino

a vida segue sempre um destino
momentos.
escolhas?
alguma lágrima
algum sorriso
banho com trilha sonora
e depois dormir mansinho.

o caminhão já passou
é hora do anjos se despedirem.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

automne ardent

como dividir-se corpo e mente entre cometa e sol se a poeira os afastara em longo outono?
a que boca oferecer-se fruto?
o cavalo corria solto, praia, as mãos atadas sonhavam crina.
a sereia em outro lago
lado tão distante ao seu.
ainda podia sentir o eco de seu chamado de outrora
queimar-lhe peito, ferir-lhe bocas.
desalinho, corpo inverno sem cobertas.
mas sentia fogo.
água? mera ilusão juvenil.
era preciso terra.
terras!
sobre sob junto pelos lados.
do grão úmido da chuva,
sabia,
a mais forte colheita.

domingo, 26 de maio de 2013

sexta-feira, 5 de abril de 2013

perto dela não sentia fome

perto dela não sentia fome
não sentia o frio dos pingos.
mas era despedir-me
para sentir estômago roncar
e o peito arrepiar.

perto dela eu só tremia
suava, corava, gemia.
sem conseguir disfarçar sorriso
e desviando o olhar.

e o ônibus desliza pela noite carioca
humaitá
revelando o primeiro beijo noir.

sábado, 30 de março de 2013

A Busca

Tanto verde
tanta gente
tanto interior
naquela tela tão grande
a sala escura e fresca.

Meu peito encheu-se em grito
sem poder gritar
meus cabelos pediram rio
sem poder mergulhar
meu corpo pediu: livre
sem poder dançar.

Fechei os olhos molhados
e vi a flor.
Soprei baixinho ao vento seu nome
cheio de cor.
Uma pétala me veio em brisa
toda embrionadinha em dor.

Senti-la murcha assim
fraquinha
deu um nó em meu pescoço
que disfarcei com palavras tolas
aos olhos grandes de fora.

De longe reguei seu vaso
alimentei-a com humo
e o colar da impotência
pesando-me a garganta.

Oh, flor, no outono confusa
com as folhas que caem.
Logo chega a primavera
e sabes que lama é também alma.

No jardim ou na floresta
há de desabrochar de novo
em lindas cores
leves tons
suave
sem ferrugem azul.

Descansa em sono profundo
sentido-se toda plainar.
Consolo de rede
em colos
mãos em suave trançar.


Borboleta é pétala qu voa,
escreveu Clarice, pois.
Mariposita amiga,
guarda-te em teu casulo
para o breve metamorfasear.

sábado, 23 de março de 2013

você está exclamando, marília

eu havia dito:
não há você nessas fotos.
você olhou a parede:
no hay.

hoje olhei,
menti,
você está lá
pulsando em meu peito
como exclamação.

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